29
de
novembro
OS PREGADORES DA MORTE E OS DA ESPERANÇA
Quem quer ter esperança tem que ser poeta, ou seja, interpretar a realidade além do óbvio, além do que se vê. “O que se vê, de forma fácil, não é esperança”. A esperança está relacionada com a possibilidade de ver concretizado em nossa vida a beleza do nosso jardim abscôndito. Há um jardim no coração de todos nós. É preciso reencontrá-lo, tornando-o visível, desfrutando, assim, dos seus deleites e fantasias.
Os olhos, contaminados pelo aparente, pelo estereótipo, pelo supérfluo, não permitem vislumbrar as emanações de beleza manifestadas na criação por meio de insights do coração. A beleza do nosso jardim não consegue viver enclausurada. Numa luta contra a morte promovida pela mediocridade, o jardim exala aromas de encanto e graça. É preciso deixar-se ser levado pelo perfume mágico do belo.
Os nossos olhos estão doentes. É preciso curá-los. Para uma experiência místico-poética é necessário olhos sadios, desobstruídos de axiomas opressor-religiosos.
Os pregadores da esperança não podem transformar suas homilias em vaticínios de morte. Interpretar a esperança como uma experiência totalmente transcendental, além da criação, é negar a essência da vida presente na criação. Subestimar a experiência de viver, considerando-a como algo de somenos, é viver contraditoriamente num mundo impregnado de vida.
Os pregadores da esperança anunciam um novo mundo que já pode ser experimentado no contado com a criação. Quem tem esperança percebe constantemente a invasão do futuro no presente. Por outro lado, percebe-se o presente apontando para o futuro, já que as sementes do futuro estão sendo lançadas no campo da experiência existencial. A esperança não está em outra dimensão, mas se faz presente em nossa experiência histórica. “O que importa agora é recuperar os nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais” (Susan Sontag).
É preciso sensibilidade poético-espiritual para ver melhor, ouvir melhor e sentir melhor. Para isso é importante perceber a presença da graça na criação. “Por favor, deixe o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui” (Mário Quintana). Deixe o outro mundo em paz, busque e viva a esperança aqui.
Os pregadores da esperança resgatam o valor da criação de Deus, promovendo uma espiritualidade voltada para uma humanidade restaurada. A esperança de um mundo restabelecido ao projeto criacionista de Deus, que escatologicamente já começou, tem o seu fundamento na encarnação do Verbo. “E o Verbo se fez carne”. A Palavra criadora assumiu a condição humana, experimentando historicamente a sua realidade.
“Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco” (Clarice Lispector). É preciso que estejamos empenhados em viver a partir da esperança. A esperança não é algo apenas voltado para o futuro, mas diz respeito a uma prática vivencial impulsionada pela “esperança”. A vida ganha sentido e valor pela presença da esperança, qualificando e projetando o viver para uma experiência nova.
Os pregadores da morte desqualificam o experimentar a vida de forma plena neste mundo. Todo e qualquer valor existencial é arremessado para uma outra realidade ou dimensão de vida. A relação do homem com a criação é negligenciada e sem poesia. Para satisfazer-se nesse mundo, recorre-se ao egocentrismo. O homem órbita sobre si mesmo, numa experiência de morte paulatina.
Os pregadores da morte não conhecem o valor e a natureza da encarnação. Não conseguem admitir a possibilidade de Deus afeiçoar-se com a criação e com a história. A existência de Deus só é concebida de forma transcendental, mas em hipótese alguma de forma imanente. O Deus dos pregadores da morte só pode ser experienciado fora da realidade histórica humana. É um Deus presente apenas como força, como energia, e não como pessoa.
Os pregadores da morte têm um “Deus”: eles mesmos. Se alguém quiser encontrar o Deus da esperança deve buscá-lo em outro espaço, em outra dimensão.
Abramos os nossos ouvidos para os pregadores da esperança, já que os mesmos apontam sempre para o verdadeiro Deus, e não para eles mesmos.
Aziel M. Gusmão: azielmiranda@yahoo.com.br

