Espiritualidade

Blog Espiritual

20

de
dezembro

O TESTEMUNHO DE UM SOPRO CONTAMINADO.

O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus! (Mc1.24)
Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo? Que tipo de testemunho autentica o caráter do discípulo, principalmente num mundo conduzido pelo “deus” do poder, do possuir, do ter? A voz que ecoa dos templos é uma reverberação da voz de Deus, ou uma proclamação do egocentrismo camuflado, escondido atrás de manifestações cúlticas como estratégia para a permanência dominadora do eu e a ausência real de Deus?
A voz que ressoa nos templos, nem sempre é expressão de louvor autêntico. Sei quem tu és: o Santo de Deus! (Mc 1.24b). Mefistófeles também proclama, também exalta. A origem da exaltação pode vir de ambientes obscuros do coração, de uma atmosfera sombria, com intenções malignas. Como se proteger de uma falsa adoração? Como se resguardar do engodo de nós mesmos?
O templo não autentica o testemunho religioso como verdadeiro. O templo como edifício não garante nenhuma proteção contra a presença de manifestações ocultas e enganosas. O templo, ambiente de manifestações de poder místico, demonstra a fragilidade de uma religiosidade dependente da concupiscência dos olhos, os quais só conseguem enxergar o aparente, mas não consegue penetrar no âmago do coração. Para olhar para dentro, para o mundo da simplicidade abscôndita, onde a verdadeira riqueza e poder são marcados pela candura e inocência, singeleza e dependência são preciso desenfeitiçar-se da ostentação.
A presença do poder desvirtua a verdadeira adoração. O desejo de consumir, aliado ao poder, como forma de auto-autenticação induz uma prostração dissimulada. Uma genuflexão forçada pelo peso do poder, deixa de ser adoração, passa a ser idolatria a si mesmo. Seria uma atitude de um deus curvando-se diante dele mesmo. Para Ludwig Feuerbach o deus do homem não é nada mais que a essência divinizada do homem. Se há algo que potencializa o homem, transformando-o em um pequeno deus, é o poder.
O poder mediante o ter torna os homens possessos, possuídos, escravizados. Para Nietzsche … quem pouco possui tanto menos é possuído. Bendita seja a modesta pobreza!. Para adorar é preciso exorcizar-se de interesses vis, do querer possuir, para que a graça se manifeste de forma graciosa. O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?. Quando não há despojamento, a veneração transforma-se em confronto, Jesus Cristo torna-se inimigo e não o objeto da adoração. Se existe algum confronto, ele deve existir antes da adoração. A adoração é uma atitude dos vencidos. Só adora, de fato, quem perde a batalha, ou deixa ser vencido na guerra contra o eu.
Para adorar é preciso render-se, submeter o eu a outro. No entanto, é absolutamente impossível render o“eu fazendo aquilo de que gostamos (C. S. Lewis). Adorar é uma atitude de amor. Amar, no entanto, implica dependência de outro em sentido profundo e existencial (Renold Blank).
O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? A atitude de adorar é uma entrega radical. É um salto na certeza, não no escuro. É a convicção de que se há sentido existencial, esse sentido se encontra em outro, não em mim mesmo. Por isso o adorador não necessita de marketing de adorador. A titulação de adorador impede a manifestação da graça para adorar. E sem a graça a atitude cúltica de adorar perde a gracilidade, a beleza, a poesia.
Nem tudo o que se diz no templo é adoração. Nem todo testemunho no templo é expressão fidedigna de louvor. Nem todo testemunho cristológico refere-se a uma identificação com Cristo. 
A adoração transcende o ordinário. A adoração é uma expressão naturalmente extraordinária, já que em Cristo toda a nossa vida é marcada pela excepcionalidade. O sopro que nos impulsiona a adoração é o sopro santificado de Cristo, presente naqueles que foram libertos do sistema marcado pela secularização.

Aziel M. Gusmão: azielmiranda@yahoo.com.br 

11

de
dezembro

O silêncio que confronta os interstícios da Alma

No princípio era o silêncio. Deus não era o silêncio, mas a eternidade se prostra silenciosamente em reverência a grandiosidade do Eterno. O “totalmente outro”, aquele que é transcendente em natureza e em essência provoca assombro, admiração em toda a Sua criação. Não pode haver palavras, na verdade não há palavras que possam definir a glória e a beleza que encanta os sentidos de admiração da criatura. Deus é belo, Deus é “graça”. Essa beleza que tudo preenche, que tudo contagia, que tudo enleva, que a tudo arrebata para o mundo do deslumbramento, nos faz emudecer numa atitude de prostração cultista: “o silêncio”.
Calar-se diante de Deus é uma atitude de reconhecimento de nossa condição paradoxal: “diminuta e de honra”. Diminuta, porque somos criaturas, e toda criatura é abrandada diante da grandeza do seu criador. De honra, por poder contemplar a criação e o Criador, por fazer parte da existência. “Obrigado Senhor por existir e poder te conhecer”. Nessa condição, qualquer verbalização deve estar marcada pela reverência, pelo culto, pela adoração. Falar diante de Deus e sobre Deus requer cuidados místico-religiosos.
Um entrave pode prejudicar a contemplação da beleza existente na experiência humana: “o poder”. Se há uma marca na religião e nos religiosos que os autenticam como representantes do divino, é o poder. Os religiosos, imbuídos de “autoridade”, obstam o encantamento e os sonhos. Como diz Rubem Alves, “na verdade, os que têm poder não mais sabem sonhar, e os que sabem sonhar não têm poder”.
O poder cega eclipsa a beleza e desconstrói os sonhos. Como diz Friedrich Nietzsche “o poder gosta de andar com pernas tortas”. Quem anda com pernas tortas, nunca alcançará o mundo da beleza. Os caminhos do poder desconjuntam a experiência mística e encantadora da vida. Já não é possível sonhar, não há tempo para sonhar, deixe que os outros sonhem por ti. Esta é a premissa dos “pernas tortas”.
Os que ainda sabem sonhar e querem continuar sonhando se abdicam de qualquer tipo de poder: tornam-se crianças. Ser criança é não ter poder. Eu quero ser criança. Quem não se torna como uma criança não entra no jardim encantado, não vê seus sonhos tornados em realidade e a realidade como concretização dos sonhos. “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande” (Adélia Prado). Ser grande é patogenia, é causar doença, é ser doente, é querer o trono, é querer o poder.
O poder religioso, o poder do saber teológico pode nos embrutecer. Pode nos levar para a lama. “Todos querem ascender ao trono. É sua loucura — como se a felicidade estivesse no trono! Muitas vezes é a lama que está no trono, e muitas vezes o trono é que está afundado na lama”.
O poder tem uma característica mortal: nos torna palradores.
O poder não permite o silêncio.
O silêncio incomoda os poderosos.
O poder não permite a contemplação.
O silêncio é contemplação.
Para perceber e desfrutar das coisas divinas é preciso silenciar-se para contemplar. Diante da contemplação não há o que falar: somente gozar.
O deleite está no silêncio.
O deleite está no sussurro.
O balbucio é sinal de êxtase provocado pelo prazer da beleza.
Coaduno com as palavras de Roland Barthes: “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível”.
O silêncio nos incomoda. O silêncio nos leva ao mais profundo da nossa alma. O silêncio diz quem somos. Por isso tanto “barulho cúltico”, como máscara, como fuga, com proteção daquilo que de fato somos. O silêncio traz para a superfície as nossas fealdades. Deus quer o silêncio. Deus precisa do silêncio para criar um jardim no centro do nosso coração.
Aziel M. Gusmão: azielmiranda@yahoo.com.br

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