MISSÃO INTEGRAL E ESPIRITUALIDADE: UM REENCONTRO COM O BUCOLISMO PERDIDO NO MEIO DO MISTICISMO ALIENANTE.
Falamos muito de Igreja e pouco de Reino. E quando falamos de Reino, muitas vezes distorcemos o seu sentido, dando um valor meramente subjetivo e etéreo. Por haver tanta elevação e eterificação do verdadeiro sentido do Reino, percebe-se uma certa “desconsciência”, um agir fora da realidade, atitudes conseqüentes de práticas barbiturizadoras, sedativas, entorpecentes de atos litúrgicos, transformando a espiritualidade em ações, muitas vezes, inumanas. Buscar o Reino é buscar o governo de Deus sobre a nossa história, sem desfigurar, ou demonizar aquilo que Deus aprovou como bom ou muito bom.
Como exemplo desse “entorpecimento espiritual”, podemos citar a forma como tem se interpretado o louvor em muitas igrejas cristãs. Aquilo que é expressão do reconhecimento da glória de Deus e da nossa condição como criatura, tem se transformado em um verdadeiro mecanismo de prazer hedonista e de êxtases incontrolados e improdutivos para a verdadeira espiritualidade. O louvor e a adoração são mais do que uma expressão musical alucinante, mas diz respeito a um estilo de vida, em que, segundo Paulo, toda a nossa vida, todas as nossas atitudes devem redundar em glórias a Deus.
Viver no Reino e viver o Reino têm haver com a nossa existência, buscando no governo de Deus, sentido para a história e nossa participação nela. A missão da igreja, que deve ser integral, deve incluir em sua mensagem tanto o céu como a terra. Tanto o subjetivo como o objetivo. Tanto o além como o aquém. É preciso que a missão da igreja encontre o seu lugar na terra, e que a igreja transmita, depois de encontrar, beleza ao fazer missão.
A integralidade da missão não se refere apenas à totalidade da estrutura humana, ao espiritual e social, mas diz respeito, também, a forma como devemos interpretar e experienciar a vida.
1. A transcendência que cega.
“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores…” (Fernando Pessoa)
Adélia Prado diz que “poesia é o rastro de Deus nas coisas”. Por onde Jesus passava deixava as marcas da beleza de Deus, levando, principalmente os seus discípulos, a enxergarem além do óbvio. “Observem as aves do céu…” A busca por uma experiência com um Deus transcendente ofuscou os olhos dos discípulos. Ver anjos e manifestações de pirotecnia, é o que pode ser entendido, por alguns, como experiência espiritual. Ver pássaros, contemplação simplista e insignificante. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores”, é necessário sensibilidade espiritual e poética, para ver o natural impregnado de transcendência e de sobrenaturalidade.
Francis Schaeffer diz que “ser espiritual é ser cada vez mais humano”. A nossa espiritualidade passa pela nossa reumanização. A queda nos desfigurou, atingindo a nossa essência humana, que passa por uma convivência sadia com a criação. Ser espiritual é mais do que arrebatamentos e sensações físicas. Ser espiritual não significa transcender a nossa existência de forma platônica e gnóstica, ignorando a imanência do Deus criador. Buscar espiritualidade a partir de uma outra dimensão é menosprezar a encarnação do Verbo. É dizer não para a espiritualidade proposta por Jesus Cristo. É desconfiar da humanidade de Cristo e de suas implicações para a nossa humanização.
Para observar as aves do céu e perceber a ação cuidadosa do Criador, “não é bastante não ser cego”. Para ver como crescem os lírios do campo e a sua vestimenta esplendorosa, “não basta abrir a janela”, “não é bastante não ser cego”. É preciso que os efeitos da ação salvífica estejam impregnando o universo de cada um de nós.
O Deus transcendente passeia pelo seu jardim. Não passeia a qualquer hora, mas quando há brisa, quando o vento fresco sopra provocando encantamento, vida, significado. Poderíamos dizer que esta é uma atitude espiritual. Rubem Alves diz que:
Ser espiritual é gozar o vento fresco da tarde, gozar o perfume dos jasmins, sentir o gosto das frutas, deleitar-se na forma e nas cores das flores, amar as montanhas distantes, entregar-se ao frio da água das cachoeiras, sentir o arrepio das carícias na pele (R. Alves. “Mansamente Pastam as Ovelhas”, pág. 73)
Plagiando Adélia Prado, eu diria: Deus, nos cure da transcendentalidade perniciosa, nos torne humanos, semelhantes ao teu Filho encarnado.
2. O misticismo alucinógeno.
“Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa”. (Fernando Pessoa)
O verdadeiro misticismo passa pela encarnação do Verbo. A comunicação da divindade e com a divindade é possível por meio da Palavra que virou gente. O verdadeiro conhecimento místico não é resultado de experiências visionárias do invisível. Em Jesus de Nazaré é possível contemplar e compreender o invisível. Os segredos, o abscôndito, que fazem pessoas comuns transformarem-se em celebridades místicas, perdem o sentido e o valor. Em Jesus, percebemos e aprendemos que a criação e a nossa própria vida estão impregnadas de sobrenaturalidade. Há uma certa mística na criação, ou melhor, a criação é mística. Existe nela uma excelência que provoca contemplação. A vida, por meio de Cristo, ganha sentido, beleza, em que os questionamentos filosóficos sobre se vale à pena vivê-la, desaparecem, pois em Cristo ouvimos o sim para a vida.
As “euforias espirituais” provocadas por experiências religiosas cristãs, parecem comprovar o pensamento de Karl Marx de que “a religião é o ópio do povo”, e numa versão contemporânea, Ricardo Gondim diz que a “religião é a cocaína do povo”. Alguns líderes cristãos, parecem influenciados por químicas religiosas alucinógenas: “O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa”. Já não conseguem enxergar de forma natural. Há uma desfiguração da criação por meio das lentes místicas de uma espiritualidade concebida sem o verdadeiro conhecimento bíblico.
A espiritualidade da Missão Integral, deve restaurar o valor da encarnação.
3. Condescendência e comprometimento, e não apenas discurso.
Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles. (F. Pessoa).
Hermann Hesse diz que só devemos considerar pessoas que falam de assuntos de sua própria experiência. Falar de Missão Integral a partir dos gabinetes equipados com ar-condicionados, computadores, cadeiras giratórias, etc, é bastante confortante. “Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!” Poderíamos dizer: Que vergonha tornar-se uma celebridade em missiologia construindo pensamentos com a infelicidade dos outros! Se não houver condescendência, identificação com o necessitado, se não houver uma opção por uma vida simples e humilde, o caráter da missão será descaracterizado. Se a infelicidade dos outros não nos incomoda e não nos impulsiona a uma ação transformadora, é preferível que nos calemos.
Uma espiritualidade sadia, verdadeiramente cristã e cristológica, deve valorizar a criação e a vida, repudiar o misticismo falso e ter uma prática impactante e revolucionária como propõe a mensagem do Reino.
Aziel M.Gusmão:azielmiranda@yahoo.com.br