7
de
abril
TEOLOGIA E EVANGELIZAÇÃO NUM MUNDO GLOBALIZADO.1/2
A “modernidade tardia” ou “pós-modernidade” é marcada por uma supervalorização do ter, em que a economia e o mercado apontam os valores que devem reger o cidadão nessa nova sociedade marcada pela quebra das barreiras econômicas, sociais, culturais e religiosas. Para conviver nesse novo sistema planetário, é necessária uma reinterpretação de alguns conceitos, inclusive éticos e morais, como também de muitos conceitos religiosos. Princípios e conceitos teológicos que sustentaram muitos grupos religiosos como absolutamente verdadeiros, são, hoje, severamente questionados, minimizando, assim, o valor da crença e da fé desses grupos.
Como usar a teologia e promover a evangelização num mundo em que os bens materiais estão acima dos bens morais, éticos e religiosos? Como falar de simplicidade, daquilo que é essencial, numa sociedade marcada pelo símbolo do poder? Como ser cristão, com todos os seus valores necessários e essenciais, quando a exigência básica da sociedade pós-moderna, globalizada e secularizados é possuir “sonhos” de consumo, satisfazendo o desejo e a ganância do mercado? Como ser discípulo de Jesus de Nazaré, homem simples e humilde, no mundo moderno onde o que caracteriza o cidadão como alguém que teve sucesso, são os bens que possui?
Diante de tantos questionamentos, mais um se faz necessário: para que serve a teologia e o discurso missionário sobre a existência de um Deus pessoal que está interessado no homem, mas que não garante a felicidade prometida nos moldes do mundo globalizado? O papel da igreja é fundamental para responder de forma clara e objetiva os grandes questionamentos e conflitos experimentados pelo homem secularizado, que tem investido tudo o que possui nessa ideologia que promete apaziguar o coração do homem, trazendo paz e segurança sem a intervenção do transcendente.
No seu livro “O lado oculto da globalização” Tom Sine apresenta um quadro mostrando a visão desse mundo globalizado quanto a alguns valores e a forma como a Igreja encara esses mesmos valores. A sua opinião é de que os Estados Unidos são o carro chefe em muitas dessas imposições quanto a interpretação do mundo. Para ele, o que se pretende é que o mundo seja de alguma forma, americanizado.
A Igreja brasileira, bem como a Igreja latino-americana, sofrem, ambas, do mesmo vácuo teológico, provocando uma eclesiologia narcisista e institucionalizada, em que os interesses políticos e econômicos superam em muito os valores intrínsecos da verdadeira igreja, não como instituição, mas como um organismo vivo: o corpo de Cristo. Robinson Cavalcanti diz que “a crise da teologia latino-americana (e brasileira) se relaciona com a crise da teologia mundial e o ocaso da modernidade, com a presença do poder único e da idéia única”. Esse fato leva a igreja a assumir posturas que não condizem com a sua verdadeira função.
Marcas de secularização da igreja
A igreja não está imune às influências da secularização. Por isso, seria necessário um maior cuidado para preservá-la dos valores contrários aos seus legítimos interesses. No entanto é possível perceber alguns desses valores negativos impregnados na igreja cristã. Entre eles estão:
a. “A busca de sucesso em oposição à igreja como serva.
b. Preocupação consigo próprio oposta ao auto-sacrifício.
c. Envolvimento como espectador passivo oposto à contribuição de cada membro.
d. Elitismo oposto à comunidade cristã.
e. Religião civil oposta à religião profética.
f. Divisibilidade oposta ao desejo de unidade.
g. Valores do poder secular opostos ao poder do amor altruísta.
h. Competição oposta à cooperação.
i. Manipulação oposta ao respeito pela dignidade humana.
j. Falsa segurança oposta ao compromisso radical.
k. Isolacionismo oposto à participação na sociedade.
l. Estilo gerencial oposto à participação do corpo inteiro.
m. A busca de riquezas e a avareza oposta à administração responsável das coisas.
n. Racismo, castas e tribalismo opostos à unidade em Cristo.
o. O fim que pretende justificar os meios opostos aos meios coerentes com os fins bíblicos”.
Revista Ultimato – julho/agosto 1999
Série Lausanne. “O evangelho e o homem secularizado”. p. 27-28.

