Espiritualidade

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2

de
julho

As Bases para o Crescimento da Igreja

A América Latina sofreu – e continua sofrendo – uma influência expressiva, principalmente dos “ianques”, provocando uma ascendência sobre o povo latino-americano, tornando-o subjugado aos padrões culturais, a partir de sua ideologia “american way of life”, e a cosmovisões baseadas em ideais capitalistas e de soberania imperialista.
Não é possível ser simplista ao avaliar a influência do protestantismo vindo dos Estados Unidos a partir do século XIX. Sente-se nos dias atuais o reflexo e o resultado pernicioso da arrogância do poder na maneira de se lidar com as questões religiosas e espirituais. Percebe-se uma interpretação e uma prática religiosas manchadas pelo sistema oriundo de uma visão doentia do capitalismo selvagem e excludente, em que o nacionalismo americano está impregnado na igreja latino-americana, tornando, inclusive a liturgia, um momento de exposição da cultura do colonizador.
O empreendimento missionário a partir do século XIX tem o seu lado positivo e sadio. No entanto, as marcas contraproducentes devem ser analisadas para perceber-se a descentralização da mensagem cristológica na igreja contemporânea, principalmente no Brasil, provocada por uma supervalorização do “ter” como mecanismo de superação das carências espirituais e existenciais.
A partir de 1817 e 1820 com a eleição de James Monroe para presidente dos Estados Unidos, a América Latina passa a ser vista como um ambiente propício para a ação expansionista do idealismo americano. Em 1823 o presidente Monroe com sua doutrina “a América para os americanos”, visava um alcance continental: “a reivindicação da América Latina como um espaço de segurança, controle político e hegemonia comercial dos Estados Unidos”. Desde então, tem-se presenciado uma interferência cada vez mais contundente nos países latinos, tornando-os dependentes economicamente, sofrendo as conseqüências do subdesenvolvimento econômico e social.
Os empreendimentos missionários na América Latina sofreram de alguma forma a interferência dessa visão política, provocando um protestantismo vulnerável, sofrendo inserções doutrinárias baseadas em visões políticas, e, não, totalmente bíblicas: “O surgimento dos protestantismos de maneira sistemática a partir da segunda metade do século 19 encontra sua explicação na expansão do modelo de produção capitalista, em escala continental.”
Conforme Robinson Cavalcanti, no protestantismo latino-americano “cresce a santificação do capitalismo e a concentração da propriedade, renda e poder (com os eleitos à frente e por cima)”. Os projetos e investimentos voltados para o crescimento da igreja têm como pano de fundo os ideais pragmáticos do sucesso e do resultado numérico como marca de uma igreja abençoada por Deus. Os líderes eclesiásticos são convocados a buscarem uma unção especial, para se tornarem “líderes de multidões”. Percebe-se claramente a presença, nos anseios missionários, de uma ideologia voltada para o grande, para aquilo que impressiona.
Ao comparar-se essas preocupações com a maneira como Jesus encarava a sua missão, percebe-se um contraste significativo no que se refere ao valor ou propósito da missão e da existência da Igreja. Jesus Cristo não estava preocupado com números. O resultado de sua missão estava voltado para a qualidade, para os valores do reino de Deus. O importante era ser governado por Deus, fazendo parte de uma nova sociedade, na qual o mais significativo era o conformar-se aos desejos de Deus para a humanidade.
Os interesses capitalistas não se coadunam com os interesses do Reino. É necessário optar entre o valor qualitativo do Reino, voltado para a importância do homem como homem, e o “glamour” superficial do ideal capitalista, em que o sentido de qualquer empreendimento está no sucesso voltado para o antropocentrismo.
Tomando o Brasil como exemplo, é possível perceber nitidamente uma mensagem missionária dominada pelas aspirações do sucesso. Grandes templos são construídos para a “glória de Deus”, usando os recursos, em sua maioria, de pessoas simples e honestas, que ao buscarem Deus por meio das igrejas cristãs evangélicas, têm encontrado um sistema mercantilista, massacrante e explorador. O nome de Deus tem sido propagado à custa da servidão de pessoas simples e inocentes a um modelo que visa mais os interesses denominacionais e mundanos de uma liderança eclesiástica contaminada pelo secularismo. O ensejo para o crescimento (ou inchaço) da igreja tem atropelado e eclipsado a verdadeira natureza da fé cristã e o verdadeiro valor e propósito da Igreja de Jesus Cristo. A essencialidade da mensagem de Cristo, que propõe um desapego aos valores atrelados ao sistema diabólico (“… a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” Lc 12.15b), e uma busca e investimento na reumanização do homem caído, parece não fazer parte dos ideais de crescimento da maioria das igrejas brasileiras.
O que significa crescimento, progresso? Conforme Charles Baudelaire, poeta francês, “o progresso é se livrar das marcas do pecado original”. O que se tem visto, com os métodos de crescimento da igreja, é mais uma propagação e uma concretização dos princípios motivadores da “queda" do que uma preocupação com uma identificação e conformação à imagem de Jesus Cristo. As marcas do pecado original podem ser identificadas nas atitudes antropocêntricas, em que o nome de Deus aparece apenas para justificar as intenções e os interesses de uma minoria em busca de marketing pessoal.
A tentação sofrida por Cristo – e por ele vencida – em relação ao poder econômico e a ilusão da imagem das grandes construções têm feito a igreja contemporânea tropeçar, tendo uma atitude oposta à de Jesus. Enquanto Jesus rejeita o valor e a ilusão do grande, os seus discípulos têm visto com bons olhos a proposta do resultado numérico como algo positivo. “Os reinos do mundo e o seu esplendor” (Jo 4.8) estão cada vez mais presentes nos ideais de crescimento da igreja, como se houvesse por parte de Deus, alguma preocupação em ser conhecido por mecanismos vulneráveis e fúteis.
A construção de templos, muitos deles como as catedrais góticas da Idade Média, está vinculada ao resultado de investimentos voltados para o quantitativo. Quanto mais pessoas, mais templos. Quanto mais templos, a necessidade de enchê-los (qualquer método passa a ser saudável para justificar os investimentos para a construção dos edifícios). A expressão de Jesus “não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas” (Mt 24.2b), parece contraditório nos dias hodiernos. O “templismo” está atrelado ao “pastorcentrismo”. Sem templo não há lugar para o estrelismo, para o destaque. “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17.24). Quem habita em santuários, em edifícios é o “senhor - homem” é o “senhor-pastor”, usurpador do poder, centralizador das atenções, a vedete que usa todos os mecanismos possíveis para permanecer desfrutando das benesses do poder.

Aziel Miranda: azielmiranda@yaho.com.br

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