“A alegoria da caverna” presente no livro “República” de Platão, é um dos textos mais conhecidos e discutidos quando se trata de se conhecer os princípios e conceitos filosóficos sobre a realidade e a verdade. Nessa alegoria Platão usa de uma narrativa em que aparecem personagens que devem ser interpretados, a partir de suas experiências históricas, como exemplo da relação do homem com seu ambiente vivencial, levando-o a discernir o que de fato é realidade ou meramente “sombras”, usando, evidentemente, a filosofia como instrumento de interpretação, conhecimento e de descoberta do verdadeiro sentido e propósito da existência.
É possível, a partir de alguns fragmentos ou elementos da narrativa, perceber a intenção do autor em provocar uma análise sobre a vida do homem em seu contexto histórico, numa busca por uma compreensão do verdadeiro sentido de sua existência.
Num primeiro momento aparece a imagem da caverna apontando, provavelmente, para o mundo em que vivemos e experimentamos. A caverna é descrita como uma morada subterrânea, em que é possível, a partir da tradição grega, identificá-la como o lugar dos mortos (Hades). É justamente nessa “caverna-túmulo” que se encontram os prisioneiros da metáfora. A experiência desses homens é de viverem aprisionados por seus repetitivos hábitos, numa mesmice existencial, acostumados com aquilo que é projetado por uma luz, aparentemente inaccessível. Diante desse contexto, o natural é que esses homens buscassem compreender a sua origem e a realidade concreta. No entanto, há claramente um comodismo em que não interessa uma investigação mais profunda, necessitando, inclusive, transpor as barreiras da caverna (mundo sensível), pelo contrário, as sombras, o trivial, o ordinário bastam para o seu conhecimento.
O que existe do lado de fora da caverna, além do muro que os separa da luz que projeta as sombras? Para Platão, tudo aquilo que é projetado é o resultado da manipulação dos pedagogos profissionais (os sofistas) e dos políticos de Atenas que não permitem que os cidadãos comuns pensem por si mesmos. O pensar dos prisioneiros na caverna, não passa de uma atitude reflexiva (como o reflexo num espelho) daqueles que detém o poder político, econômico e intelectual. É preciso autonomia no pensar. É preciso libertar-se da imposição dos detentores do poder. Para isso é necessário uma atitude subversiva, revolucionaria: erguer-se e caminhar em direção ao Sol, o qual projeta sombras, mas desnuda o verdadeiro mundo e a realidade.
O processo de libertação, o sair da caverna rumo ao conhecimento, ao saber, à autonomia ontológica e existencial, precisa de um instrumento capaz de romper com as cadeias da mediocridade levando o homem a uma nova experiência de vida e de contato com o universo que o circunda. Esse instrumento é a filosofia. É a partir do filosofar, de investigar o mundo, de questionar e lucubrar que se pode conhecer a existência e tornar-se livre.
Há uma insatisfação natural em todo homem no que diz respeito ao significado de sua história e existência. Na metáfora da caverna, nem todos os prisioneiros procuram a liberdade. Apenas um se levanta em busca de respostas. Os outros continuam convencidos de que o que existe se encontra diante de seus olhos. Aquele que é libertado, provavelmente por um impulso interior que o leva a perder o medo sobre a descoberta da realidade, sai em busca do desconhecido que trará sentido para ele como ser existente. Através da filosofia (e do filosofar) é possível experimentar um novo mundo, no entanto, essa experiência não se dá de forma fácil. Para Platão são necessárias uma adaptação e adequação à nova realidade promovida pela filosofia. Evidente que não se trata de qualquer filosofia, já que aquela ensinada pelos sofistas era criticada e considerada perniciosa, mas, sim, uma filosofia preocupada com a riqueza e a beleza do transcendente que esclarece e ilumina a história humana. Para que essa riqueza e beleza sejam perceptíveis, é necessário, segundo Platão, que haja uma contemplação por meio da filosofia. O filósofo no exercício de contemplação compreende a verdade e a realidade.
Ao conhecer a realidade e a verdade o filósofo não deve se contentar com um conhecimento particular, mas deve transmitir para os seus ex-companheiros a sua descoberta, mesmo correndo o risco de ser rechaçado como um alucinado. Sendo assim, fica evidente um papel político do filósofo, que não vive “encantado” com suas descobertas, mas preocupa-se em transmitir o seu saber para a transformação da sociedade em que estiver inserido. As descobertas filosóficas devem proporcionar uma melhoria na forma de se viver em sociedade, promovendo transformações significativas no agir político, econômico, social, intelectual etc.
A metáfora da caverna nos proporciona uma reflexão importantíssima sobre a nossa própria história e quais têm sido as nossas motivações, principalmente como cristãos evangélicos. Fica evidente que se não houver uma investigação cuidadosa da revelação bíblica sobre o projeto de Deus para a humanidade e do verdadeiro papel da igreja na sociedade, bem como da nossa condição como criaturas (considerando, inclusive, que somos seres culturais) poder-se-á viver como prisioneiros de ideologias e mensagens falsas que levam, principalmente os “crentes”, a alienação como pessoa e cidadão. É preciso que nós cristãos extrapolemos os muros da mediocridade, construídos por muitos pensadores evangélicos que só conseguem enxergar Deus dentro de uma caverna fria e sem vida. O Deus cristão é como o Sol que brilha fora da caverna, sendo necessário ir ao seu encontro para compreendermos a realidade, trazendo, assim, sentido e beleza à nossa existência.
Aziel Miranda-azielmiranda@yahoo.com.br