Espiritualidade

Blog Espiritual

18

de
outubro

TEOLOGIZAR É PLANTAR UM JARDIM

Estudar e fazer teologia no mundo pós-moderno, permeado de mediocridade requer humildade e sensibilidade. A altivez catedrática impede a percepção do belo. Há estética na teologia? Sim, mas não numa percepção estetizante, em que há um detrimento do seu conteúdo. Teologizar é mais do que silogismos escolásticos. Teologizar tem a ver com sussurros sobre a ação subversiva, revolucionária de Deus na história humana, fazendo novas todas as coisas.

Para os neófitos teólogos há uma escolha a fazer: ser pregadores da morte ou pregadores da esperança. Quem quer ter esperança tem que ser poeta, ou seja, interpretar a realidade além do óbvio, além do que se vê. “O que se vê, de forma fácil, não é esperança”. A esperança está relacionada com a possibilidade de ver concretizado em nossa vida a beleza do nosso jardim abscôndito. Há um jardim no coração de todos nós. É preciso reencontrá-lo, tornando-o visível, desfrutando, assim, dos seus deleites e fantasias. “Se não tiver um jardim dentro de você, nunca verá o paraíso” (Ângelus Silesius).

Os olhos, contaminados pelo aparente, pelo estereótipo, pelo supérfluo, não permitem vislumbrar as emanações de beleza manifestadas na criação por meio de insights do coração. A beleza do nosso jardim não consegue viver enclausurado. Numa luta contra a morte promovida pela mediocridade, o jardim exala aromas de encanto e graça. É preciso deixar-se ser levado pelo perfume mágico do belo.

Aziel Miranda-azielmiranda@yahoo.com.br

29

de
setembro

TEOLOGIA E ENCANTAMENTO

“Ah! Existem tantas coisas entre o céu e a terra que só os poetas puderam por um pouco sonhar!” (Friedrich Nietzsche). O hiato entre céu e terra é atenuado pela capacidade de perceber a presença constante de Deus agindo na transformação da história humana. O nosso mundo, por mais que pareça fatídico, tem sido profundamente influenciado pelo poder do Deus criador. No princípio era um jardim. Deus estava no jardim e passeava por ele. O “Deus Trino”, “totalmente outro”, “transcendente”, é possível ser conhecido por meio dos seus atos intervenientes e de amor, principalmente através da encarnação do Verbo. A Palavra que tudo cria, que tudo encanta, torna o homem e o mundo encantados.

Somos feitos de sonhos, os quais nos projetam para sonhos futuros, construindo caminhos que serão percorridos por aqueles que tiveram os olhos abertos para o novo tempo que já começou pela irrupção do mundo idílico-escatológico. O verdadeiro teólogo tem os seus sonhos concretizados no presente por meio da esperança. “Esperança que se vê não é esperança”. A esperança é o instrumento da concretização e experimentação dos sonhos. Experimentar as promessas futuras no presente, somente para aqueles que tiveram suas superficialidades suplantadas pela excelência. A verdadeira teologia tem a esperança como companhia libertadora.

Aziel Miranda-azielmiranda@yahoo.com.br

Com um abraço do Clorindo.

www.arteecultura.com.br

18

de
agosto

JESUS É O PASTOR DA ALEGRIA

Um aspecto relevante do ministério de Jesus apresentado por Marcos, para uma compreensão pastoral na América Latina e para a América Latina, encontra-se logo no início do seu Evangelho ao tratar do batismo e tentação de Jesus (Mc 1.9-14). No verso 8 João Batista apresenta Jesus como aquele que tem poderes para batizar com o Espírito Santo. Isso aponta para a superioridade de Jesus. Ele é o mais poderoso dos homens (batiza com o Espírito), pois é homem Filho de Deus. Mesmo sendo o mais poderoso, se sujeita ao Espírito Santo, tendo todo o seu ministério impulsionado pelo poder da terceira pessoa da Trindade. A visitação do Pai ao filho da humanidade dar-se para o comissionamento e capacitação, pensando no resgate do ser humano.
Algo marcante e significativo nesse episódio é a maneira como se desenrola esse acontecimento, assinalado com riquezas de detalhes.
A ação pastoral de Jesus começa a ser delineada na sua retirada momentânea de Nazaré da Galiléia para o sul da Palestina com o propósito de ser batizado por João o Batista (ou João o batizador). A pergunta feira por Natanael no evangelho de João é pertinente: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” Nazaré, local de gente humilde e descaracterizada socialmente. Jesus se identifica com esse povo, compreendendo suas carências, conflitos e sentimentos de rejeição. Ele tem “passus”, paixão por esse povo, por isso é um homem marcado pela compaixão. Assume seu povo, sua cultura, sua geografia, identificando-se com a dor e com a rejeição social.
Após o batismo, Jesus não se dirige às multidões, em busca de reconhecimento e sucesso. Não tem uma visão missionária nem pastoral imbuída de uma urgência meramente humana. Pelo contrário, ao invés de se preocupar com qualquer tipo de status (Jesus nunca teve essa preocupação), é dirigido pelo Espírito para um lugar inóspito, vazio, deserto, em que a presença marcante se dá por Satanás e pelas feras. Marcos apresenta Jesus como um pastor que entende o verdadeiro “rosto da missão”, marcado por tentações, perseguições, conflitos internos e externos, carências físicas, etc. No entanto, o início da experiência pastoral de Jesus é assinalado pela obediência ao seu Pai, entendendo nessa experiência existencial o caráter do pastoreio com todas as suas implicações e conseqüências.
Após ser tentado e provado como um filho autêntico da humanidade, algo surpreendente acontece. Ao invés de continuar no sul da Palestina, em meio a elite religiosa e purista judaica, dirigi-se novamente para a Galiléia, em direção às gentes comuns, simples, consideradas, inclusive, como páreas. É com os desesperançados, com aqueles que já se vêem sem condições de nenhuma recompensa como seres humanos, que Jesus inicia, de fato, o seu trabalho como proclamador do reino libertador de Deus. O modelo pastoral de Jesus não é marcado pelo jugo, nem por nenhuma síndrome de onipotência do pensamento. Pelo contrário, há uma verdadeira condescendência, identificação e compreensão da natureza humana. As suas mazelas, tanto externas como internas, são vistas de forma sensível e amorosa. A única exigência é: arrependam-se. A atitude de arrependimento é demonstração de que alguém ainda opta pela vida. Na sua prática pastoral, Jesus trata a vida com proeminência. A verdadeira vida não é marcada por uma religiosidade mórbida, sem beleza, sem poesia. A vida que Jesus propõe é um poema encantador, cheia de sentido e beleza. Jesus é o pastor da alegria em meio à sombra da morte que permeia a existência humana.
Aziel Gusmão-azielmiranda@yahoo.com.br

2

de
julho

As Bases para o Crescimento da Igreja

A América Latina sofreu – e continua sofrendo – uma influência expressiva, principalmente dos “ianques”, provocando uma ascendência sobre o povo latino-americano, tornando-o subjugado aos padrões culturais, a partir de sua ideologia “american way of life”, e a cosmovisões baseadas em ideais capitalistas e de soberania imperialista.
Não é possível ser simplista ao avaliar a influência do protestantismo vindo dos Estados Unidos a partir do século XIX. Sente-se nos dias atuais o reflexo e o resultado pernicioso da arrogância do poder na maneira de se lidar com as questões religiosas e espirituais. Percebe-se uma interpretação e uma prática religiosas manchadas pelo sistema oriundo de uma visão doentia do capitalismo selvagem e excludente, em que o nacionalismo americano está impregnado na igreja latino-americana, tornando, inclusive a liturgia, um momento de exposição da cultura do colonizador.
O empreendimento missionário a partir do século XIX tem o seu lado positivo e sadio. No entanto, as marcas contraproducentes devem ser analisadas para perceber-se a descentralização da mensagem cristológica na igreja contemporânea, principalmente no Brasil, provocada por uma supervalorização do “ter” como mecanismo de superação das carências espirituais e existenciais.
A partir de 1817 e 1820 com a eleição de James Monroe para presidente dos Estados Unidos, a América Latina passa a ser vista como um ambiente propício para a ação expansionista do idealismo americano. Em 1823 o presidente Monroe com sua doutrina “a América para os americanos”, visava um alcance continental: “a reivindicação da América Latina como um espaço de segurança, controle político e hegemonia comercial dos Estados Unidos”. Desde então, tem-se presenciado uma interferência cada vez mais contundente nos países latinos, tornando-os dependentes economicamente, sofrendo as conseqüências do subdesenvolvimento econômico e social.
Os empreendimentos missionários na América Latina sofreram de alguma forma a interferência dessa visão política, provocando um protestantismo vulnerável, sofrendo inserções doutrinárias baseadas em visões políticas, e, não, totalmente bíblicas: “O surgimento dos protestantismos de maneira sistemática a partir da segunda metade do século 19 encontra sua explicação na expansão do modelo de produção capitalista, em escala continental.”
Conforme Robinson Cavalcanti, no protestantismo latino-americano “cresce a santificação do capitalismo e a concentração da propriedade, renda e poder (com os eleitos à frente e por cima)”. Os projetos e investimentos voltados para o crescimento da igreja têm como pano de fundo os ideais pragmáticos do sucesso e do resultado numérico como marca de uma igreja abençoada por Deus. Os líderes eclesiásticos são convocados a buscarem uma unção especial, para se tornarem “líderes de multidões”. Percebe-se claramente a presença, nos anseios missionários, de uma ideologia voltada para o grande, para aquilo que impressiona.
Ao comparar-se essas preocupações com a maneira como Jesus encarava a sua missão, percebe-se um contraste significativo no que se refere ao valor ou propósito da missão e da existência da Igreja. Jesus Cristo não estava preocupado com números. O resultado de sua missão estava voltado para a qualidade, para os valores do reino de Deus. O importante era ser governado por Deus, fazendo parte de uma nova sociedade, na qual o mais significativo era o conformar-se aos desejos de Deus para a humanidade.
Os interesses capitalistas não se coadunam com os interesses do Reino. É necessário optar entre o valor qualitativo do Reino, voltado para a importância do homem como homem, e o “glamour” superficial do ideal capitalista, em que o sentido de qualquer empreendimento está no sucesso voltado para o antropocentrismo.
Tomando o Brasil como exemplo, é possível perceber nitidamente uma mensagem missionária dominada pelas aspirações do sucesso. Grandes templos são construídos para a “glória de Deus”, usando os recursos, em sua maioria, de pessoas simples e honestas, que ao buscarem Deus por meio das igrejas cristãs evangélicas, têm encontrado um sistema mercantilista, massacrante e explorador. O nome de Deus tem sido propagado à custa da servidão de pessoas simples e inocentes a um modelo que visa mais os interesses denominacionais e mundanos de uma liderança eclesiástica contaminada pelo secularismo. O ensejo para o crescimento (ou inchaço) da igreja tem atropelado e eclipsado a verdadeira natureza da fé cristã e o verdadeiro valor e propósito da Igreja de Jesus Cristo. A essencialidade da mensagem de Cristo, que propõe um desapego aos valores atrelados ao sistema diabólico (“… a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” Lc 12.15b), e uma busca e investimento na reumanização do homem caído, parece não fazer parte dos ideais de crescimento da maioria das igrejas brasileiras.
O que significa crescimento, progresso? Conforme Charles Baudelaire, poeta francês, “o progresso é se livrar das marcas do pecado original”. O que se tem visto, com os métodos de crescimento da igreja, é mais uma propagação e uma concretização dos princípios motivadores da “queda" do que uma preocupação com uma identificação e conformação à imagem de Jesus Cristo. As marcas do pecado original podem ser identificadas nas atitudes antropocêntricas, em que o nome de Deus aparece apenas para justificar as intenções e os interesses de uma minoria em busca de marketing pessoal.
A tentação sofrida por Cristo – e por ele vencida – em relação ao poder econômico e a ilusão da imagem das grandes construções têm feito a igreja contemporânea tropeçar, tendo uma atitude oposta à de Jesus. Enquanto Jesus rejeita o valor e a ilusão do grande, os seus discípulos têm visto com bons olhos a proposta do resultado numérico como algo positivo. “Os reinos do mundo e o seu esplendor” (Jo 4.8) estão cada vez mais presentes nos ideais de crescimento da igreja, como se houvesse por parte de Deus, alguma preocupação em ser conhecido por mecanismos vulneráveis e fúteis.
A construção de templos, muitos deles como as catedrais góticas da Idade Média, está vinculada ao resultado de investimentos voltados para o quantitativo. Quanto mais pessoas, mais templos. Quanto mais templos, a necessidade de enchê-los (qualquer método passa a ser saudável para justificar os investimentos para a construção dos edifícios). A expressão de Jesus “não ficará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas” (Mt 24.2b), parece contraditório nos dias hodiernos. O “templismo” está atrelado ao “pastorcentrismo”. Sem templo não há lugar para o estrelismo, para o destaque. “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17.24). Quem habita em santuários, em edifícios é o “senhor - homem” é o “senhor-pastor”, usurpador do poder, centralizador das atenções, a vedete que usa todos os mecanismos possíveis para permanecer desfrutando das benesses do poder.

Aziel Miranda: azielmiranda@yaho.com.br

9

de
junho

O Stress, o Sofrimento Pessoal e a Teologia.

“O "STRESS" é o resultado de uma reação que o nosso organismo tem quando estimulado por fatores externos desfavoráveis. A primeira coisa que acontece com o nosso organismo nestas circunstâncias é uma descarga de adrenalina no nosso organismo, e os órgãos que mais sentem são o aparelho circulatório e o respiratório”.
AS MEGALÓPOLES COMO QUIMERA DO PROGRESSO HUMANO.
 “Assim, unindo as vidas e os trabalhos de vários homens, juntos iremos bem mais longe do que cada um de nós poderia ir, individualmente” - René Descartes.
As cidades, com seu aparente progresso, parecem ser uma resposta aos questionamentos sobre os valores essenciais da vida humana. No entanto, não passam de uma “vitrine de ilusões”.
 “O progresso é se livrar das marcas do pecado original” – Chales Bodelaure.
“A vida humana intercala-se, como curto lapso diurno, entre duas gigantescas noites. A noite da não existência. Ontem não éramos. Esse ontem recua bilhões de anos até o big-bang. E antes dele paira o silêncio do nada. Após a morte, abre-se nova noite escura sem término. Entre essas duas ameaças do caos inicial e final, o ser humano caminha solitário, sem luz. A teologia, ao fazer-se companheira, quer contar-lhe as estórias de Deus que lhe permitem encontrar sentido para essa aventura tão breve entre os infinitos do ontem e do amanhã”.
A caminhada do ser humano se dá de forma tenebrosa, por não entender a sua própria existência. Os conflitos, os traumas, o sofrimento, a dor, o desespero, a angústia, são conseqüências da falta de luz sobre o caminho que o homem tem que trilhar.
FONTES DO SOFRIMENTO
Segundo Jung Mo Sung, “os sofrimentos humanos, particularmente dos pobres, são conseqüência das ações humanas ou da própria condição humana”.
“Existem sofrimentos que fazem parte da condição humana, outros são causados por ações ou omissões de pessoas ou grupos sociais”.
A BÍBLIA E ALGUMAS POSSÍVEIS FONTES DO SOFRIMENTO
Stanley Jones em “Cristo e o sofrimento humano”, identifica em Lucas 21. 8-19 nove fontes do sofrimento:
1. Sofrimento proveniente de confusão nos princípios religiosos (v.8)
Os dogmas assustam como trovões
e que medo de errar as seqüências dos ritos!
em compensação
Deus é mais simples do que as religiões.
Mário Quintana
2. Sofrimento proveniente de guerras e conflitos na sociedade humana (vv. 9-10).
Como entender Auschwitz?
Como explicar teológica e racionalmente Beslan, Rússia?
Como explicar a morte de tantos inocentes em nosso país?
3. Sofrimento proveniente de calamidades físicas na natureza, como terremotos (v. 11)
“Ou Deus quer e não pode ou pode e não quer” (argumento de Voltaire em relação à explicação dada pela igreja sobre o terremoto em Lisboa no século 18).
4. Sofrimento proveniente de doenças e enfermidades físicas (v. 11)
5. Sofrimento proveniente de dificuldades econômicas (v.11)
“Da Humana Condição”
Custa o rico a entrar no céu
(Afirma o povo e não erra)
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra…
M. Quintana
6. Sofrimento proveniente dos semelhantes (v. 12)
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também…
Mário Quintana
7. Sofrimento proveniente das autoridades religiosas e seculares (v. 12)
8. Sofrimento proveniente da vida do lar (v. 16)
9. Sofrimento proveniente da união com Cristo (v.17)
POSSÍVEIS EXPLICAÇÕES PARA O SOFRIMENTO
 O stress? Mas o que causa o stress?
 Mistério? “Mistério não é a ausência de significado, mas presença de mais significado do que conseguimos compreender” (citado por Eugene Peterson)
Mas qual o objeto desse mistério que não conseguimos compreender? Deus? O Seu projeto?
Explicação de Jung Mo Sung. “Se Deus é Amor, isto é, se Deus coloca o amor acima do próprio poder, nem tudo o que acontece no mundo é fruto da sua vontade. Se ele é Amor e ama a humanidade, ele respeita a liberdade dos seres humanos”.
Possível explicação: a encarnação.
Deus se identifica com o sofrimento humano, condescendendo-se de forma amorosa. Ao morrer na cruz, Cristo sofre por nós e conosco.
Instantes (Poema de Luiz Borges (?)
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não perca o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem ter um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria até o final do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças. Se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…

7

de
abril

TEOLOGIA E EVANGELIZAÇÃO NUM MUNDO GLOBALIZADO.1/2

A “modernidade tardia” ou “pós-modernidade” é marcada por uma supervalorização do ter, em que a economia e o mercado apontam os valores que devem reger o cidadão nessa nova sociedade marcada pela quebra das barreiras econômicas, sociais, culturais e religiosas. Para conviver nesse novo sistema planetário, é necessária uma reinterpretação de alguns conceitos, inclusive éticos e morais, como também de muitos conceitos religiosos. Princípios e conceitos teológicos que sustentaram muitos grupos religiosos como absolutamente verdadeiros, são, hoje, severamente questionados, minimizando, assim, o valor da crença e da fé desses grupos.
Como usar a teologia e promover a evangelização num mundo em que os bens materiais estão acima dos bens morais, éticos e religiosos? Como falar de simplicidade, daquilo que é essencial, numa sociedade marcada pelo símbolo do poder? Como ser cristão, com todos os seus valores necessários e essenciais, quando a exigência básica da sociedade pós-moderna, globalizada e secularizados é possuir “sonhos” de consumo, satisfazendo o desejo e a ganância do mercado? Como ser discípulo de Jesus de Nazaré, homem simples e humilde, no mundo moderno onde o que caracteriza o cidadão como alguém que teve sucesso, são os bens que possui?
Diante de tantos questionamentos, mais um se faz necessário: para que serve a teologia e o discurso missionário sobre a existência de um Deus pessoal que está interessado no homem, mas que não garante a felicidade prometida nos moldes do mundo globalizado? O papel da igreja é fundamental para responder de forma clara e objetiva os grandes questionamentos e conflitos experimentados pelo homem secularizado, que tem investido tudo o que possui nessa ideologia que promete apaziguar o coração do homem, trazendo paz e segurança sem a intervenção do transcendente.
No seu livro “O lado oculto da globalização” Tom Sine apresenta um quadro mostrando a visão desse mundo globalizado quanto a alguns valores e a forma como a Igreja encara esses mesmos valores. A sua opinião é de que os Estados Unidos são o carro chefe em muitas dessas imposições quanto a interpretação do mundo. Para ele, o que se pretende é que o mundo seja de alguma forma, americanizado.

A Igreja brasileira, bem como a Igreja latino-americana, sofrem, ambas, do mesmo vácuo teológico, provocando uma eclesiologia narcisista e institucionalizada, em que os interesses políticos e econômicos superam em muito os valores intrínsecos da verdadeira igreja, não como instituição, mas como um organismo vivo: o corpo de Cristo. Robinson Cavalcanti diz que “a crise da teologia latino-americana (e brasileira) se relaciona com a crise da teologia mundial e o ocaso da modernidade, com a presença do poder único e da idéia única”. Esse fato leva a igreja a assumir posturas que não condizem com a sua verdadeira função.

Marcas de secularização da igreja

A igreja não está imune às influências da secularização. Por isso, seria necessário um maior cuidado para preservá-la dos valores contrários aos seus legítimos interesses. No entanto é possível perceber alguns desses valores negativos impregnados na igreja cristã. Entre eles estão:
a. “A busca de sucesso em oposição à igreja como serva.
b. Preocupação consigo próprio oposta ao auto-sacrifício.
c. Envolvimento como espectador passivo oposto à contribuição de cada membro.
d. Elitismo oposto à comunidade cristã.
e. Religião civil oposta à religião profética.
f. Divisibilidade oposta ao desejo de unidade.
g. Valores do poder secular opostos ao poder do amor altruísta.
h. Competição oposta à cooperação.
i. Manipulação oposta ao respeito pela dignidade humana.
j. Falsa segurança oposta ao compromisso radical.
k. Isolacionismo oposto à participação na sociedade.
l. Estilo gerencial oposto à participação do corpo inteiro.
m. A busca de riquezas e a avareza oposta à administração responsável das coisas.
n. Racismo, castas e tribalismo opostos à unidade em Cristo.
o. O fim que pretende justificar os meios opostos aos meios coerentes com os fins bíblicos”.
Revista Ultimato – julho/agosto 1999
Série Lausanne. “O evangelho e o homem secularizado”. p. 27-28.

7

de
abril

Teologia e evangelização num mundo globalizado.2/2

O fim que pretende justificar os meios opostos aos meios coerentes com os fins bíblicos”.

A igreja, por não apresentar o evangelho de forma desafiadora e fidedigna quanto à sua vocação, além de experimentar todas essas contradições, tem sofrido algumas conseqüências em decorrência do processo de secularização.
Conseqüência 1. Uma visão distorcida de prosperidade.
Os americanos, em especial, produziram uma “teologia” da prosperidade, que tem influenciado as igrejas latino-americanas em geral, supervalorizando o possuir em relação ao ser. Pelo fato da pobreza ser algo marcante em nossa sociedade, tal proposta foi aceita como algo libertador. A Igreja brasileira tem experimentado já há algum tempo essa ideologia, comprometendo, assim, a sua identidade como agente representativo dos verdadeiros valores do Reino de Deus, que extrapola, em muito, as questões meramente jactanciosas. A teologia da prosperidade nas igrejas latino-americanas, de forma velada, e para muitos, ainda não identificada, aparece como uma proposta salvífica, em substituição ao projeto salvífico de Cristo. Se de forma consciente ou não, a questão é que essa mensagem tem provocado cicatrizes na igreja que só poderão ser curadas a longo tempo.
Conseqüência 2. A esterilidade intelectual.
A falta de cultura é uma das formas de impor autoridade sobre os mais fracos. Como a Igreja brasileira, as latino-americanas têm sido manipuladas, principalmente por aqueles que querem assumir uma liderança pastoral despótica. O que se tem visto é uma defesa do “pastorcentrismo” a partir de uma interpretação equivocada de textos bíblicos, e do verdadeiro papel do pastor na comunidade cristã. É preciso entender que manter as pessoas na ignorância cultural também é pecado.
Conseqüência 3. Avivamento espiritual sem conseqüências históricas e sociais.
Na década de 1960-70 presenciou-se na Argentina um avivamento espiritual, que teve como conseqüência imediata o crescimento de muitas igrejas em se tratando, principalmente, de valor numérico. Na década de 1980-90 as igrejas brasileiras também passaram por um chamado avivamento espiritual, sendo o sinal de identificação o número crescente de novos “supostos evangélicos”. Nos últimos dias temos presenciando a bancarrota da Argentina, e uma desolação de seu povo. O Brasil passa por um dos seus piores dias, com o aumento significativo da violência e da pobreza. A questão que precisa ser analisada, é o porque de tais avivamentos não produzirem transformações sociais significativas e duradouras. O avivamento não se dá apenas de forma subjetiva e “espiritual”, mas atinge o ambiente em que a igreja está inserida.
Conseqüência 4. Uma escatologia platônica e dualista.
O “dispensacionalismo” influenciou bastante as igrejas latino-americanas. Uma interpretação equivocada sobre o desfecho da história tem levado muitos a terem mais uma cosmovisão grega do que judaico-cristã. O investimento que as igrejas fazem no social, por exemplo, é irrelevante por enxergarem a história também como irrelevante. O consolo apresentado por muitas igrejas (e isso é bem patente nas igrejas do “terceiro mundo”) é que iremos muito em breve para um outro lugar. Esse mundo, como ensinou Platão, seria apenas uma sombra de um mundo real. Como diz Leonardo Boff, “o Reino de Deus não é um lugar totalmente outro, mas totalmente novo”. Algo positivo que tem despertado as igrejas latino-americanas, principalmente depois de Lausanne, é uma releitura da escatologia bíblica, percebendo o interesse de Deus pela história humana e por esse mundo. De qualquer forma ainda estamos longe de uma teologia mais madura nesse aspecto.
Parece a princípio que a avaliação é totalmente negativa. No entanto percebe-se um despertar para uma nova realidade, mesmo que seja embrionário. Vê-se, por exemplo, o surgimento de uma Teologia Latino-Americana, desenvolvida a partir de nossa realidade, respondendo, assim, aos anseios atribuídos não somente em torno das questões latentes de todos os seres humanos, mas também pelo contexto cultural em que a Igreja e a sociedade estão inseridas.
O intercâmbio entre a igreja brasileira e as igrejas latino-americanas, além do aspecto da procedência histórica, faz com que se pareçam em muitos aspectos, principalmente nas expressões cúltica e litúrgica.
As mudanças têm ocorrido. Existe um futuro promissor para a igreja brasileira e as igrejas hispano-americanas, que tem sido construído no decorrer dos anos. O exemplo disso são os constantes congressos realizados na América latina. Em 1992 foi realizado em Quito, no Equador, o CLADE III (Congresso Latino-Americano de Evangelização) com participantes do Peru, Brasil, Equador, Argentina, México, Chile entre outros. O documento final aponta para essas mudanças ao tratar da “identidade evangélica”.
“Como evangélicos necessitamos revalorizar nossas raízes indígenas, africanas, mestiças, européias, asiáticas e crioulas, e considerar a pluralidade de culturas e raças que tem contribuído para enriquecer-nos. Como igreja latino-americana confessamos que temo-nos identificado mais com os valores culturais estrangeiros que com os autenticamente nossos. Pela graça de Deus podemos reencontrar-nos com o mundo sem complexos nem vergonhas a partir de nossa identidade cultural e evangélica como povo de Deus…”
… Afirmar nossa identidade evangélica implica reafirmar nosso compromisso com a herança da Reforma.
… Devemos avaliar os modelos de missão que herdamos do passado ou que se importam no presente, e buscar novos modelos. Isso implica forjar uma missiologia a partir da América latina que leve em conta as experiências e apoios das igrejas dos diferentes grupos étnicos e culturais do continente.
A igreja como agente do reino de Deus, deve apresentar o evangelho de Jesus Cristo como solução única para a remissão do homem e da sociedade secularizada.
Série Lausanne. “O evangelho e o homem secularizado”. p. 27-28.
Boff . Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 30.
Luiz L. Neto. O Novo Rosto da Missão . Viçosa: Ultimato, 2002. p. 207

30

de
julho

TEOLOGIA É ANTROPOLOGIA?

O PERIGO DE UM DISCURSO TEOLÓGICO QUANDO O TEOLOGIZAR ELEVA O HOMEM E NÃO O OBJETO DA TEOLOGIA
Ludwig Feuerbach diz que “o deus do homem não é nada mais que a essência divinizada do homem”. Em outras palavras, se existe algum Deus, ele não passa de uma projeção daquilo que existe de mais excelente no homem. O “deus” do homem seria o próprio homem como centro, como celebridade, como ponto para onde convergem todas as atenções. Nesse caso, o discurso teológico transforma-se em um discurso antropolátrico. Teologia transforma-se em antropologia. Deus é colocado à margem, apenas como elemento de elucubrações cientificistas.
Como falar de Deus sem querer ser um “deus”? Como colocar-se como arauto da divindade sem divinizar-se? A tendência natural do ser humano é buscar manter-se no centro de sua existência, investindo cada vez mais no “eu”, alimentando sua fome de poder e domínio. Nessa busca pelo controle máximo de sua história, o homem procura exercer aquilo que entende como o ponto máximo de sua autonomia: a liberdade. Dentro de uma concepção secular, para ser verdadeiramente livre é preciso libertar-se de qualquer poder que transcenda a experiência histórica e humana. Não é possível assumir a liberdade em subserviência a um poder maior, que diria o que realmente é a liberdade. Como ser livre se existe um Deus totalmente livre? Não há espaço para dois seres absolutamente livres. Sendo assim, ou Deus ou o homem deve ser livre. A disputa está travada.
Para Jean-Paul Sartre liberdade “é um dever fazer o que se quer, pensar o que se bem entende, ser responsável perante si próprio apenas, analisar permanentemente o que se pensa dos outros”. Fazer o que se quer sem a necessidade de prestar contas a outro, como um dever, ou uma obrigação, aponta para o senhorio de si mesmo. ‘O que eu quero fazer, devo fazer. Sou livre para fazer’. ‘Penso o que quero pensar. Sou livre para pensar’. ‘Não preciso prestar contas a ninguém, a não ser a mim mesmo’. Sou livre para agir. Sou senhor de mim mesmo. Essa é a característica do homem secularizado, em busca de autenticar sua liberdade.
Os discursos teológicos estão cheios de pedantismos, percebendo-se claramente a ausência da ação impactadora e transformadora do poder de Deus, capaz de destronar o “eu”, promovendo, assim, o senhorio de Jesus Cristo. O objeto da teologia é Deus. E para falar sobre Ele é preciso que se fale sobre o Cristo, que inevitavelmente leva-nos a falar sobre sua cruz. Sem cruz não há teologia, há eloqüência vazia promovedora de status do ego.
Teologia é antropologia? Nos dias atuais parece ser uma realidade. Os homens que falam sobre Deus não deixam Deus falar. Deus não deve falar, não tem o direito de falar. Quem fala é o “homem-deus”. Teologia versus antropologia? O discurso teológico está impregnado de antropologia, elevando o homem ao centro do discurso religioso.
É extremamente necessário para os nossos dias um resgate do verdadeiro objeto da teologia, promovendo, assim, uma volta da reverência devida diante do Deus Todo-Poderoso.
Aziel Miranda:azielmiranda@yahoo.com.br

4

de
junho

A TERCEIRA MARGEM DO RIO: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA

“A terceira margem do rio” é tido como o mais famoso conto de Guimarães Rosa, provocando as mais diversas interpretações, devido a seu teor enigmático presente na história de um homem que se afasta do convívio familiar e a da sociedade, preferindo a solitude do rio, no qual navega em uma canoa construída com um propósito: servir de veículo na busca de respostas ou da resposta para os questionamentos existenciais.
O narrador, também envolvido na história, é o filho, responsável em relatar o empreendimento do pai e as diversas tentativas dos familiares e amigos em reconduzir o aventureiro navegador ao curso natural da vida. Todas as tentativas são frustradas. A aventura continua, levando a família a tomar decisões radicais: a irmã, após o casamento, muda-se da fazenda levando consigo a mãe; e o irmão toma a mesma decisão. O único a continuar é o narrador, na esperança de convencer o pai a rever sua decisão.
O filho, ao permanecer na fazenda, próximo ao rio, procura constantemente entender o porquê do afastamento do pai. Essa ausência provocada de forma abrupta e inexplicável, fugindo completamente daquilo que entende como normal na vida humana. Quais os verdadeiros motivos que levaram o seu pai a decidir-se pela solidão ao convívio familiar? O que seu pai estava procurando? A procura do pai seria a procura de todo ser humano? Seria essa a decisão última a ser tomada na busca do conhecimento existencial? Para uma verdadeira compreensão é necessário assumir o lugar do pai na canoa. No entanto, quando seu desejo parece possível de realizar-se, foge com medo, desistindo da idéia. De qualquer forma, a insistência do filho em continuar nas proximidades do rio, demonstra o seu desejo de compreender as razões da existência humana.
A partir da visão que o filho-narrador tem da aventura do pai, é possível fazer-se uma análise teológica dessa experiência. Alguns detalhes chamam a atenção do leitor, levando a uma apreciação daquilo que apontaria para a presença de elementos metafísicos ou religiosos presentes no texto. O primeiro fator que impressiona aparece logo no título do conto: “A terceira margem do rio”. Uma viagem em direção à terceira margem do rio é algo insólito, anormal. O título é provocativo e misterioso. É preciso um “mergulho” cuidadoso no texto para perceber a verdadeira intenção do autor.
Já que um rio só tem duas margens, uma viagem a uma terceira margem parece apontar para algo metafísico. A viagem pelo rio tem um propósito que transcende um mero passeio ou divertimento. Há uma busca metafísica e existencial. Há uma busca por respostas, que não podem ser encontradas no curso natural da história. É preciso uma viagem que extrapole a superficialidade da visão. O rio só tem realmente duas margens? Não existe nada além do ordinário? A busca de uma terceira margem pode ser a explicação para a existência das duas margens, as quais ganharão sentidos, trazendo sentido para o navegador.
É possível decifrar algum simbolismo em relação à água. No que se refere à religião, a água está relacionada ao batismo, experiência de morte para um estilo de vida primitivo e insignificante e nascimento para uma outra vida: vida superior qualitativamente, caracterizada pela excelência e pelo significado existencial.
A busca do pai (navegador) pode estar num mergulho em si mesmo. Isso explicaria a busca pela solidão. É na solitude, tendo o rio como espelho, que seria possível um encontro consigo mesmo, encarando sua verdadeira natureza, encontrando sentido para a vida e para a sua vida.
Talvez a busca esteja em torno de uma verdade religiosa, que explique os conflitos e questionamentos no íntimo do seu ser. A existência de um Deus (ou de Deus) parece exigir uma busca transcendental. É preciso ultrapassar as duas margens naturais para alcançar uma margem sobrenatural: a terceira margem.
Uma outra possibilidade estaria em buscar ou encontrar sentido por meio da própria morte. A decisão radical pelo afastamento, pela solidão, pelo abandono, parece uma decisão pelo perecimento. A vida perde o sentido. A história não tem significado. Se há alguma razão para a existência, ela pode estar do outro lado, na terceira margem. É preciso enfrentar a transição que todos temem, para encontrar numa nova forma existencial o sentido não encontrado entre as duas margens.
Nem todos estão conscientes da necessidade de um conhecimento da realidade, como também não estão prontos para enfrentar a realidade. Parece ser esta a condição do filho. Ao permanecer à margem do rio, anseia pelo significado da vida. Pede para ocupar o lugar do pai, mas ao contemplá-lo, foge, muito provavelmente, da realidade. Ele não foi capaz de dar o passo necessário para a experiência concretizadora do conhecimento da realidade. A verdade assusta. Ele preferiu continuar entre as duas margens, a enfrentar aquilo que é real quanto a existência humana.
Procurar a terceira margem parece ser a busca de todo ser humano. A teologia aponta para uma direção que entende como verdadeira e única: conhecer a Deus por meio de Jesus Cristo para poder se conhecer. Por meio da revelação proposicional, encontrada nas Escrituras, é possível navegar com segurança ao encontro da verdade. Se há uma terceira margem, se há uma verdade, se há sentido para a existência humana, em Cristo tudo é solucionado. Nele, toda a aventura se encerra.
Aziel Miranda:azielmiranda@yahoo.com.br

ROSA, João Guimarães. Primeiras histórias / A terceira margem do rio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

28

de
abril

A metáfora da Caverna e a busca da verdade: A real

“A alegoria da caverna” presente no livro “República” de Platão, é um dos textos mais conhecidos e discutidos quando se trata de se conhecer os princípios e conceitos filosóficos sobre a realidade e a verdade. Nessa alegoria Platão usa de uma narrativa em que aparecem personagens que devem ser interpretados, a partir de suas experiências históricas, como exemplo da relação do homem com seu ambiente vivencial, levando-o a discernir o que de fato é realidade ou meramente “sombras”, usando, evidentemente, a filosofia como instrumento de interpretação, conhecimento e de descoberta do verdadeiro sentido e propósito da existência.
É possível, a partir de alguns fragmentos ou elementos da narrativa, perceber a intenção do autor em provocar uma análise sobre a vida do homem em seu contexto histórico, numa busca por uma compreensão do verdadeiro sentido de sua existência.
Num primeiro momento aparece a imagem da caverna apontando, provavelmente, para o mundo em que vivemos e experimentamos. A caverna é descrita como uma morada subterrânea, em que é possível, a partir da tradição grega, identificá-la como o lugar dos mortos (Hades). É justamente nessa “caverna-túmulo” que se encontram os prisioneiros da metáfora. A experiência desses homens é de viverem aprisionados por seus repetitivos hábitos, numa mesmice existencial, acostumados com aquilo que é projetado por uma luz, aparentemente inaccessível. Diante desse contexto, o natural é que esses homens buscassem compreender a sua origem e a realidade concreta. No entanto, há claramente um comodismo em que não interessa uma investigação mais profunda, necessitando, inclusive, transpor as barreiras da caverna (mundo sensível), pelo contrário, as sombras, o trivial, o ordinário bastam para o seu conhecimento.
O que existe do lado de fora da caverna, além do muro que os separa da luz que projeta as sombras? Para Platão, tudo aquilo que é projetado é o resultado da manipulação dos pedagogos profissionais (os sofistas) e dos políticos de Atenas que não permitem que os cidadãos comuns pensem por si mesmos. O pensar dos prisioneiros na caverna, não passa de uma atitude reflexiva (como o reflexo num espelho) daqueles que detém o poder político, econômico e intelectual. É preciso autonomia no pensar. É preciso libertar-se da imposição dos detentores do poder. Para isso é necessário uma atitude subversiva, revolucionaria: erguer-se e caminhar em direção ao Sol, o qual projeta sombras, mas desnuda o verdadeiro mundo e a realidade.
O processo de libertação, o sair da caverna rumo ao conhecimento, ao saber, à autonomia ontológica e existencial, precisa de um instrumento capaz de romper com as cadeias da mediocridade levando o homem a uma nova experiência de vida e de contato com o universo que o circunda. Esse instrumento é a filosofia. É a partir do filosofar, de investigar o mundo, de questionar e lucubrar que se pode conhecer a existência e tornar-se livre.
Há uma insatisfação natural em todo homem no que diz respeito ao significado de sua história e existência. Na metáfora da caverna, nem todos os prisioneiros procuram a liberdade. Apenas um se levanta em busca de respostas. Os outros continuam convencidos de que o que existe se encontra diante de seus olhos. Aquele que é libertado, provavelmente por um impulso interior que o leva a perder o medo sobre a descoberta da realidade, sai em busca do desconhecido que trará sentido para ele como ser existente. Através da filosofia (e do filosofar) é possível experimentar um novo mundo, no entanto, essa experiência não se dá de forma fácil. Para Platão são necessárias uma adaptação e adequação à nova realidade promovida pela filosofia. Evidente que não se trata de qualquer filosofia, já que aquela ensinada pelos sofistas era criticada e considerada perniciosa, mas, sim, uma filosofia preocupada com a riqueza e a beleza do transcendente que esclarece e ilumina a história humana. Para que essa riqueza e beleza sejam perceptíveis, é necessário, segundo Platão, que haja uma contemplação por meio da filosofia. O filósofo no exercício de contemplação compreende a verdade e a realidade.
Ao conhecer a realidade e a verdade o filósofo não deve se contentar com um conhecimento particular, mas deve transmitir para os seus ex-companheiros a sua descoberta, mesmo correndo o risco de ser rechaçado como um alucinado. Sendo assim, fica evidente um papel político do filósofo, que não vive “encantado” com suas descobertas, mas preocupa-se em transmitir o seu saber para a transformação da sociedade em que estiver inserido. As descobertas filosóficas devem proporcionar uma melhoria na forma de se viver em sociedade, promovendo transformações significativas no agir político, econômico, social, intelectual etc.
A metáfora da caverna nos proporciona uma reflexão importantíssima sobre a nossa própria história e quais têm sido as nossas motivações, principalmente como cristãos evangélicos. Fica evidente que se não houver uma investigação cuidadosa da revelação bíblica sobre o projeto de Deus para a humanidade e do verdadeiro papel da igreja na sociedade, bem como da nossa condição como criaturas (considerando, inclusive, que somos seres culturais) poder-se-á viver como prisioneiros de ideologias e mensagens falsas que levam, principalmente os “crentes”, a alienação como pessoa e cidadão. É preciso que nós cristãos extrapolemos os muros da mediocridade, construídos por muitos pensadores evangélicos que só conseguem enxergar Deus dentro de uma caverna fria e sem vida. O Deus cristão é como o Sol que brilha fora da caverna, sendo necessário ir ao seu encontro para compreendermos a realidade, trazendo, assim, sentido e beleza à nossa existência.

Aziel Miranda-azielmiranda@yahoo.com.br

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